Afastamento de si mesmo
31/07/2007
Por Antônio Lopes de Sá
O velho refrão “conhece-te a ti mesmo”, tão antigo quanto as pirâmides do Egito, é hoje abraçado pela Neurociência.
Pouco se conhece do poder instalado em nossa mente e esta muitas vezes faz conosco o que nem sempre gostaríamos que sucedesse.
A falta da concentração de nossa energia em nosso próprio corpo, a evasão que empreendemos dos pensamentos que nos atormentam, sem enfrentá-los, são algumas das causas de grandes males.
A verdade é que não são poucas as vezes que fugimos a responsabilidade que devemos ter para conosco mesmos.
Não são raras as vezes que dissociamos o poder do espírito daquele da mente, ou seja, esta não se usa como é possível fazer.
Tudo porque insistimos em desconhecer que só dentro de nós mesmos podemos realizar a interação entre alma e corpo.
A ignorância é o maior de todos os males, mas, a pior delas é a que possuímos de nós mesmos, lecionou Buda há cerca de 2.500 anos.
Procuramos frequentemente “fora” de nós o que só dentro poderíamos obter em recursos para sermos venturosos.
A maior parte do tempo se busca em outros seres, ou, em certa coisa, a felicidade, sem dar conta de que é junto de nós que está a fonte da satisfação.
Em razão disso pagamos altos preços pelo afastamento de nós mesmos.
A falta de reconhecimento dos próprios recursos, a ignorância de como tratar com estes é a responsável pela maior parte das insatisfações.
Ou seja, somos nós mesmos, na maioria dos casos, quem nos torturamos com a nossa forma de conduzir.
Construir muralhas internas entre o que devemos ser e o que permitimos que a mente faça de nós é militar contra a própria vida.
Não são poucas as vezes que a pessoa teme a ela mesma, ou seja, apavora-se com os medos que cria.
Outras vezes, e, isso é comum, deixa de fazer um elo entre si e a consciência, coisas que muitos imaginam ser a mesma coisa, mas, que em realidade são distintas.
Energia vital e mente são coisas que devem estar em harmonia.
Se impedirmos que a alma possa atuar ficará nossa vida a mercê apenas de uma estrutura cerebral que mesmo eficaz não tem competência isolada para oferecer-nos todo o exercício da existência.
O corpo é meio onde o espírito é fim.
O eu não é a própria consciência.
A consciência é fruto de uma construção composta de matérias mutáveis.
Como tudo se transforma, os cenários de cada instante nos apresentam variáveis formas de observação e interpretação e tendem a nos causar a impressão de que já não somos os mesmos.
Quando nos deixamos absorver por tais imagens tal como formalmente se apresentam, sem o filtro do espírito, ofuscamos esta luz interna que nos capacita conhecer-nos essencialmente, que oferece condições ao exercício dessa concessão que é a existência.
Para que tudo seja visto como bom é preciso que não nos afastemos de nós mesmos, pois, internamente sempre deveremos encontrar a bondade do viver.
Não se perde o que não se tem como, por antítese, o que se tem pode ser perdido.
Nisso reside a responsabilidade de ser feliz, ou seja, de não permitir que se deforme o que por doação perfeito foi entregue, de afastar do que se possui, por não saber usar um poder concedido.

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